terça-feira, 10 de março de 2020

Olho-me e revejo-te


Olho-me
E revejo-te
Retorno à infância
Em que me empurravas no triciclo
E brincávamos com os telecomandados
Em que conduzias o Citroen e nos levavas
A descobrir montes, e estradas
Jardins
E nos levavas
E recordo os telefonemas políticos
O telefone tocava do partido
E tocava
E tocava
E as reuniões noturnas

Diziam-te boa tarde em todo lado
Eras conhecido
Eras boa pessoa

Sei que mais tarde foi difícil
Revoltei-me
Magoei-te
Mas estiveste sempre presente
Não falhaste
Não fugiste

A história não é linear
Mas sigo em frente
Porque estavas lá

Olho-me e revejo-te
Estás aqui
Ao meu lado
Sempre

Sorrio na fotografia
E recordo o teu sorriso
Sorris para mim
Quando sorrio
E sorrio


quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

O que importa


O que importa
São os arco-íris e as rosas
Não, não é isso que importa
O que importa são os azuis celestes, as formas
Não, não é isso que importa´
O que importa é a magia das coisas, as loiras
Não, não é isso que importa´
O que importa é o riso, o brincar com a lira contra a ira
Não, não é isso que importa

Mas que me importa o que importa
Pois que choro assim
em voz torta
Este perlimpimpim
Que me fecha as portas que importam

Cópula marítima




Avança avança
Recua…
Recua…
Lambe-me nua
Debaixo dessa Lua

Leva-me
Puta
Salga-me
Banha-me

Assim nua
Entra-me
Molha-me
Sou tua



domingo, 3 de novembro de 2019

Domingo à tarde


Gostaria que o tempo parasse num domingo
à tarde
aconchegado o umbigo
entre mantas mantinhas
a chuva lá fora
o nada fazer
mirar o vazio preguiçar
os gatinhos entrando
saindo pulando
e eu a ver
do sofá
lá fora cinzento
cá dentro silêncio

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

10 poemas do outro mundo, por Ricardo Andrade








1.    Entredentes

Virei a página
Saltei o muro
Enterrei as armas da ira
Encontrei-me puro

Chamusquei os lábios
Num tétrico obtuso
Revirado cio
Arrefecido com água do luso

Voltei ao estridente agudo
Cigarro burro
Soube voar
Entredentes gritar

Agora abro as janelas
Deixo entrar o vendaval
Viro-me a elas
Com o que resta do enxoval



2.    Lira

Era uma vez uma lira da antiguidade
Sem idade
Gracejava como galinácea
Tinha tias ásperas
Ginasticava-se suspendendo-se nos braços
Efémeros abraços
Pesava 333 gramas
Mas que não a entendes, que não a amas…



3.    Fio condutor

É um fio de cobre brilhante
Que canta extravagante
E que se impõe, qual Lavagante
Aos olhos do mais pedante

Segue por esse fio uma mensagem
Qual dor da outra margem
Sem tino nem aragem
Que entorpece como um pajem

Segue sem senso nem sentido
Muito é dito e perdido
Nesse mundo ido
Sem razão para ser lido

As máquinas da carnificina
Seguem também fratricidas
Eliminando dessa escrita
Toda a pneumonia

Segue por isso sã
Sem veneno, sem podre maçã
Avançando para o amanhã
Que a compreensão é vã



4.    Entornei uma gota de tinta no rascunho

Tinta azul
Chá do bule
Tinta vermelha
Chora a velha
Sujo o papel
(também não procuro anel)
Fica a mancha
E no verão juro que me atiro da prancha

Era uma folha branca
Que não rança
E veio aquela tinta colorida
Por aí espargida
Fazer das suas
Esboçar luas
Que ainda que turvas
Atiram duendes às curvas



5.    Um sonido distante aproxima-se

Há uma certa história de uma Big Band
Ter resultado de um Big Bang

Junta-se o finito ao infinito
Na imensidão do aflito

Procura-se no além
A penumbra do aquém

Atiram-se os pratos ao Universo
Com uma chuva de cometas-verso

Chora-se num céu estrelado
A um escuro homem amado

Envia-se a nave espacial
Ao outro lado do mundo oriental

Sem peripécias físicas
Vence-se o Nobel das fisgas



6.    Desfalecimento a meio do processo

Estou no meio de um PREC
Enlouquecido sem leque
Revolucionam-se-me as órbitas
Amolecem os Jesuítas
Tudo rima
Estou como louco em Lima
Avançam os perus
Segue-se com comichão nos cús
Tudo é mentira
(Atira-lhes com um vira)
Saem aos pares, em duetos
Vêm doutros mares, vêm de guetos
Aceleram as cerimónias sacras
São tal qual almas fracas
Parem-me esta orgia
Purifiquem-me – Hoje é dia!



7.    Entra a menina do encantamento

Não há poema que se preze
Sem cabelos louros e olhos esverdeados
Lançados na messe
Dos homens aturdidos e bronzeados

Não há poema de jeito
Sem um olhar atrevido
Um riso perdido
Pelas esquinas a eito

Não há verso com alento
Que se não mova ternurento
Pela imensidão do teu leito
Pela brancura de teu feito

Deixa-me apaixonar por ti
Deixa-me desfalecer
Trocar um ó por um í
Amar assim e morrer



8.    Ténue beleza, frágil verdade

Há dias amargos
Pesados
Dias da morte da criança
Esquartejada por lança
Dias da velha abandonada
Aos ratos deixada
Dias do viúvo sem dentes
Sem cachorro, sem lentes
Dias da floresta ardida
Uma raposa perdida
Há dias amargos
Pesados
Que choro, lamento
A todos calha um tormento



9.    Sem nada por inventar

Não há um sim, sem um não
Não há perlimpimpim, sem senão

Não há conjura, sem traição
Não há água pura, sem conspurcação

Não há idade, sem magia
Não há veleidade, sem alquimia

Não há delicadeza, sem brutalidade
Não há singeleza, sem complexidade

Assim há fábulas, e fadas
Assim são as rábulas fisgadas



10. Do outro mundo

Vim eu aqui uma melodia deixar
Mil léguas para aqui chegar

Atirei-me um dia da falésia
Cai ao mar da Pérsia

Encontrei veados pelo caminho
Felinos, Luas, dormi em linho

Perdi dentes
Dormi também com doentes

Achei pedras e pedrinhas
Bichinhos, coisas pequeninas

Mirei do alto, rastejei no chão
Planei no planalto, abri, fechei a mão

Não sei o que ficou
Sobrou, sobrou

Talvez as contas de vidro
As cores, o gemido















segunda-feira, 1 de julho de 2019

Pôr do sol


Zombies atacam-me
Do sol, resta-me l'argent
Prata de pobre
Deixo a minha marca com cola branca na parede - num último espasmo da minha claridade
Mas mais não é que vómito de crustáceo apegado ao nicho
Nada promete
As miúdas avançam a sua nudez pela praia junto à falésia
Deslizam aves marinhas sobre a água
E eu morno
Sintonizado com o aquecimento global
Projeta-se uma urbe sem perspetiva
Vêm sondar as moscas paneleiras e panascas
Cospe-se álcool sobre as bichas e acende-se o fogo que resta 
Lambamos um Olá na praias de Sesimbra


domingo, 23 de junho de 2019

De aqui a pouco acaba o dia.


De aqui a pouco acaba o dia.
Não fiz nada.
Também que coisa é que faria?
Fosse o que fosse, estava errada.

De aqui a pouco a noite vem.
Chega em vão
Para quem como eu só tem
Para o contar o coração.

E após a noite a irmos dormir
Torna o dia.
Nada farei senão sentir.
Também que coisa é que faria?

Fernando Pessoa


Passou um dia
Fiz que fiz, que fiz?
Passou o dia em que finalmente faria
Tudo o que sonhei, sempre quis.

É noite, põe-se o coração
De jeito virado para o sonho
Mas segue vazia a mão
E engana-se assim o tolo.

Passou um dia
Segue a noite
Canta a lira
Ceifa a foice.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Fim de linha


Com os olhos postos na parede branca
Com a testa batendo na parede
Como avestruz escondendo-se na areia
Mandando o mundo para trás
Cocktail de sedativos
Whiskey a rematar pausas no tempo

Mentindo a si mesmo
Na solidão que deturpa a realidade
Fingindo-se alguma coisa
Supostamente produzindo
- como se a produção tivesse qualquer significado -
o corpo também produz merda, e então?

Chega,
Não resistas
Continuas nesse fingimento de vida
Nesse alinhar palavras geometricamente
Supostamente sendo alguma coisa
Quando se não é
Mais que nada.

Vislumbras a verdade
No pesadelo que te persegue
Violam-te
Destroem-te na luta

Acabado
Sem vida
Sem perspetiva
Fim de linha
Lixo
Resíduo

Porém,
Segue-se
Ao sol

segunda-feira, 22 de abril de 2019

Ir


Desconstrução de mate e café
Périplo vazio pela cidade nua
Divagação pelo mundo do calculismo sem malícia
Olhar descontraído
Intervalo burguês
Relaxamento felino
Dieta de puta madre

Risca-se mais um dia no calendário dos destroços
Segue-se torto

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Reflexos 13


Acordar ou permanecer
Reagir ou deixar-se entorpecido
Ficar-se ou seguir?
Chama-me a hora
Mas não é tempo
Apagada a alma
Quer-se assim, esquecida
Mas a coisa avança
E não espera
Persegue-te a concretização
Dos dias opacos


Sono, soneira, soninho
Como quem pede um mimo
Soninho, soneira, sono
São o descanso do tolo


Prezo a solidão
Livre das misérias quotidianas
Da vida a dois ou a três...
Ok, não tenho retorno
Sigo a direito sem curvas, nem contracurvas
Sem resposta, sem interacto
Mas preservo-me do atrito diário
Prefiro assim, a direito, sem a hesitação pelo outro
Sem rancores latentes
Sem bom dia, nem boa tarde
Boa noite!

Há encontros mágicos
Em que os astros se alinham
Foi assim contigo
E aqui saudades te cantam

Seguiste-me pela terra árida
Os dois correndo encantados
Para ambos fomos dádiva
Inocentes, para esse encontro fadados

Agora jazes, és nenhures
Para mim sempre bela serás
Por esse encontro um dia algures
Alegria sempre me trarás

E aqui escrevo este poema lamachento
Este poema-nada
A ti, que me trouxe o vento
A ti, que foste minha fada


Olhos fatigados
Olhar desfocado
Corpos cansados
Dias desarranjados

Persiste-se lançado
Pelo muito passado


Mais um dia de miminhos
Mais um dia de festim
Mais um dia de perlimpimpins
Mais um dia de meigas turrinhas


Azáfama das pequenas coisas
Atropelo, tontura
Confusão em que pousas
Correria sem cura


Segues um caminho
Mas duvidas
Erras, hesitas
Embriagado sem vinho

Que fazer senão andar
Seguir em frente
Usar como podes a mente
Esperando algo encontrar

Mas tudo engano
Tudo nada
Alma enganada
Não alada


Caminho
Sem tino
Que sou traste
Sem lastro

Avanço
Com lanço
Que sou lebre
Leve leve

Vagueio
Tonteio
Que sou alma
Sem calma

E divago
Amargo
Que sou peste
Sem leste


Hoje escrevo em estilo livre
Usando o subterfúgio da fuga
Fuga para fogareiro e fogaça
Que vão quentes as temperaturas
E tu que me aturas ainda
Enquanto um passarinho me dá as boas vindas
Que isto de melros simpáticos há poucos
Como o melro que me serviu este café
Que não para de piar sobre o penalti de ontem
Enquanto eu estou para aqui sem marcar um só golo
Porque isto é de tolos, mas tolo sou
Eu que nada pio e tudo piquenico
Sou bom rapaz, acomodado
E enche-se-me a barriga, que está na altura
E tu que me aturas ainda
Enquanto andamos nestas idas e vindas
Sem propósito, sem temor, sem sacristia
Que não há pão que chegue
E vamos todos falar do penalti
Que é melhor


Continuar, continuando, continuas
Seguir, seguindo, segues
Ir, indo, vais
Navegar, navegando, navegas
Nadar, nadando, nadas
Voar, voando, voas
Andar, andando, andas
E deslocar-se, deslocando-se, deslocas-te
Deslocalizar-se, porque sim
De local em local
De estado em estado
Em movimentação aflita

Sangue na foice
Vermelho tinto discorrendo
Saliva gotejando
Dedos estrangulando
Onde estás?
No quarto dos horrores porque não via
Lento, esvaindo-se
Onde estás? Onde estás, Orquídea?
Deixem a brigada passar
Deixem, deixem passar,
Que há uma urgência a liquidar
Onde estás? Onde estás, Juvenal?
Escorre-se o sangue pelo punho
Não viste a foice? Não viste?
Cantai
Aragem
Maquiavélica
Ordenadamente
Rompante

Ópio
Demoníaco
Infestando
Olhar


Gatunitos
Ágeis
Tirando
Ósculos
Sentidos


Autoridade autoritária exigindo
Mais e mais
E eis a insurgência que se afirma
Não quebra a resistência
Autoridade autoritária impondo regras
E eis a revolta que surge
O pandemónio edifica-se contrariando a norma


Gira
Ociosidade
Medrando
Alteração

Ferocidade
Repetida
Encantada
E esdrúxula


Utilidade
Monótona
Pró-criativa
Assertiva
Solidária
Sóbria
Orientada
Descaindo
Encantada
Confusa
Alimentada
Dia
Após
Vida
Esperando
Zeus


Errando
Roído
Revolto
Órfão


Falhanço
Fracasso
Tentativa gorada
Bola ao lado
Tiro pela culatra

Não há bela sem senão
E saiu-te tudo ao contrário

Facrasso
Fralhanço
Tentativa ao lado
Bola gorada
Tiro sem culatra


Ai camarada, amigo, companheiro
Ai camarada, amigo, companheiro
De onde viemos nós?
De onde viemos nós?

Ai camarada, amigo, companheiro
Ai camarada, amigo, companheiro
Quem nos tem amor?
Quem nos tem amor?

Ai camarada, amigo, companheiro
Ai camarada, amigo, companheiro
Para onde vamos nós?
Para onde vamos nós?

Ai camarada, amigo, companheiro
Ai camarada, amigo, companheiro
À morte temos temor
À morte temos temor

Ai camarada, amigo, companheiro
Ai camarada, amigo, companheiro
Que Deus nos leve em Paz
Que Deus nos leve em Paz

Ai camarada, amigo, companheiro
Ai camarada, amigo, companheiro
Que vivamos sem muita dor
Que vivamos sem muita dor

Ai camarada, amigo, companheiro
Ai camarada, amigo, companheiro
Que aceitemos o que vida traz
Que aceitemos o que vida traz


Espetar a palavra na carne
Esmagar com o olhar
Escutar pelos dedos
Esconder o invisível
Espreitar pelo muro

Libertar a voz

Dentes, sem maxilares
Olhos, sem pupila
Cabelo, sem capilares
Lábios, sem carne
Pila, sem ereção
Pés, sem unhas
Barriga, sem umbigo

Corpos sem rosto que caminham sem pernas e pulam, pulam, pulam


Vencido na luta
Jogador sem cura
Espreitando oportunidades
Aqui e ali
Num jogo sem idades
Daqui e dali
Procurando a falha
Criando problemas
Às vezes ao calhas
Mesmo sem fonemas

E no final
Derrota justa
Numa luta sem mal
Que não custa

Palavras límpidas, claras, luminosas: liberdade, fraternidade, igualdade!
Palavras sujas, escuras, sombrias: corrupção, pobreza, fascismo!
O dia opõe-se à noite
Lua cheia à Lua nova
Vida e morte
Sim e não
Palavras luminosas
Palavras sombrias


Anjos ao meu lado
Criaturas aladas
Orientam meu fado
São tudo, são nadas
São um príncipe e uma fada


domingo, 25 de novembro de 2018

Reflexos 12

Literato
Sabedor
Operário
Com arte e dor

Conceitos, ideias
Sentimentos, sensações
Escrevemos a meias
O poema das poções


Na água repousam os nenúfares
No céu agitam-se as nuvens
Tomba a folha no solo

A mãe terra segue imponente e imperturbável
O rumo inefável


O mar avança pelas casas
Violento, impiedoso
Incúria humana
Ele só avança, tempestuoso
Avança, avança
Ambição, gana
Cegueira do tortuoso
E ele que avança, avança


Chora o chorão choroso
Choroso, chorão o chora
Chorão chora o choroso
Choram todos
Todos o choram

Mais um dia de mirabolas
Mais um dia de fantastolas
Mais um dia de brincarolas
Mais um dia de festarola

Ventos, ventosos dias
Chuvas, chuvosos dias
Bate, bate, a chuva no vidro, vidro
Agita-se, agita-se, a árvore ao vento, vento
Tempestuosos dias, ao vento e chuva-vento

Aconchego-me, protejo-me
Aninho-me, pequenino

Hoje pensei no fim
Apagar a luz
Silenciar os sons
Eliminar afetos
Terminar pensamentos

Nada-escuro-claro
Que é afinal a vida
Senão uma agitação das coisas?
Surges num ponto, avanças, terminas noutro
Fica um gráfico, uma sombra, um movimento
Nada se prontifica em verdade
Tudo é, será e foi

(Deambulações ignaras pela filosofia do ocaso)



domingo, 18 de novembro de 2018

Reflexos11


Li e Bi
Dois gatitos
Pequerruchos
Pequenitos
Queriduchos

Li e Bi
Miam, ronronam
Aqui e ali
Amam-se, adoram-se

Li e Bi
Aqui e ali
São dois maninhos pequeninos
E somos os três amiguinhos

Li e Bi
Ao meu colo avançam
Aqui, ali
Miares lançam

Li e Bi
Neste poema escrevi
Pois neles vi
O muito que são para mim

Li e Bi
Dois gatitos
Pequerruchos
Pequenitos
Queriduchos
Negritos
Negrões
Negruchos

E eu bruxo

Reflexos
Olhares reflexos
Num insignificante gesto
Encerras a beleza que me ilumina o dia
Num curioso olhar
Atravessas meu pensamento
E rasgas o quotidiano previsível
Delicado teu movimento
Sobrevoa o tempo de hoje


O drama das segundas
Ansiedade
Cansaço
Desânimo

Deixas-te ficar
Falhas
Foges
E adias a luta

Encheste-te de desalento
Mas aguardas dias melhores


O drama prossegue
E persegue-me
Persegue-me um cansaço
Falta-me energia
A energia e o ânimo
Que me recordam a infância

Resta seguir
Inventando espaços de alento
Mergulhado num crónico desalento


Fugir
Escapar
Dar no pé
Compromissos
Horários
Formalidades

Fugir!
Escapar!
Dar no pé!


Espreguiças
Sua preguiçosa
Esguichas
Sua engenhosa
Engenhas
Sua enguia
Engoles
Sua gulosa
Esticas
Gostosa
Com…
Urticária

Precariedade danosa do poema com ossas


Sobe, desce
Escorrega, trepa
Para cima
Para baixo
Corre, para
Sempre em movimento
- oscilações quotidianas da minha pessoa em trânsito


Vêm os cordeirinhos
A massa popular
Populaça bem alimentada
Bater palmas ao empinado político
Junta-se a banda popular
O corte das fitas
A placa comemorativa
E ficam todos contentes
No Portugal dos pequeninos

Existem as pragas
Existem as pestes
E, entre elas,
Existem as putas
Existem-nas todas abertas
Sorridentes
Sem dentes
Flácidas
E existem-nas
Delicadas
Frescas
Austeras

Das pragas
E das pestes
É melhor nem falar
Mas sabem a verme, a bicho
Ou impõem-se felinas
Ou resignam-se caninas
E há-as com cheiro a rato
Maléficas

Enfim
De pragas
Pestes
E putas

Está o Homem cheio

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Reflexos 10

….

Sobrevoamos a cera dos deslizes
Que rege imaculada a casa dos alicerces infundados

Brilha
Ofusca-se o olhar
Busca-se o eco das coisas em que tocamos

Ainda se respira

Os felinos usam o cenário
Enviam sinais

Lá fora é agreste
E ninguém quer saber

Traças figuras desbotadas
Na aguarela das sonoridades

Que não são vistas
Que estão perdidas


Escrutinar com minúcia
Os detalhes que coloram os dias
Da vida alheia

Com instinto maternal
Procurando proteger
Conversando sobre coisas e coisinhas

A modernidade
E o perigo
Dos encontros, desencontrados

Precavem-se a antiguidade
Tentando esclarecer
Dúvidas, duvidosas

….

Vive em ti o mistério
Das viagens oníricas
Avanças no tempo
Recuas
Atravessas oceanos
Voas nas alturas

É um tempo, um espaço, sem barreiras
Sem regras físicas
Sem preconceitos

Tudo é possível
Quando te transportas
No sonho


Experimentas
Exploras outros sons
Outros vocábulos
Outro universo

Fugir da natividade
Abrindo caminho noutra língua
Mais alheado
Mas também menos preconceituoso

Abre-se um mundo novo
Onde és imigrante
Mais alheado
Mas mais liberto


A figura do pai
Nunca se esvanece
O amor de um pai
Permanece
Já não estás aqui
Mas ficas sempre em mim
Os livros que leste estão aqui
O teu sorriso ali
A tua retidão aí

Recordo-te e dás-me força
Aqui, ali, além
O amor que me suporta

Mas também mágoa…

Juvenil inocência
Juvenil crença
Juvenil retitude
Que a tua inteligência
Vença
Com virtude
Que o jovem não se corrompa
Não se deixe levar pela pompa
Permaneça puro
Ultrapasse esse muro
Que impõe a ignorância
Dos que se levam pela ânsia


Chega um mundo assustador
Pelo ecrã da TV
Gente que foge
Em busca de um sonho
Um sonho que não deseja essa gente
Vendavais e tempestades
Num tempo de um planeta doente
Ditadores que prometem horrores
E um povo alheio que os sustenta
Sinto-me pequeno, impotente
Sinto-me até parvo
Nas minhas supérfluas inquietudes
Um mundo louco, de loucos
De tubarões e sardinhas


Gatos gatitos pretitos
Minha companhia de Halloween
Meus companheiritos
Juntos fazemos festim


Infantes sorridentes
“Doçuras ou travessuras?
São a alegria corrente
Que se apresenta com lisura

Tormentas noturnas
Que revelam tua fraqueza
Teu engodo da coisa pública
Tua ignorância manifesta


Segue inexorável
Sem pausa, nem descanso
Não há arma igualável
Segue, segue
Sem perder o lanço

Tempo, tempo
Em que penso

A poesia é inútil
A poesia é estúpida
A poesia é coisa de quem não tem nada para fazer
A poesia é supérflua
A poesia é uma brincadeira sem sentido
O que é a poesia?
Inutilidade supérflua de quem não tem nada para fazer!
Pois
Inutilidade na boca de um bruto

Soluços Suspiros
Sopros soprinhos
Peidos peidinhos
- interrupções dionisíacas do quotidiano
intercalado por...


Condensa palavras
Sublima ideias
Não exige, mas desafia
Não critica, orienta
Não ostenta, ilustra

Livro sem classes…

Gente!
Uni-vos no silêncio
Que ele procura
Proletários e menos proletários
De todo o mundo
Uni-vos em torno de um livro


Ponto por ponto
Número somando-se a número
Toma forma a estatística do real

A realidade transformada em quantitativo
Sem qualidades
Estripada

Figura-se a figura escondida
Desnuda-se
Desfolha-se
Descobre-se o maravilhoso:
O Nada
Nada
Nada

Fascínio do lado esquerdo
Do lado ímpar
Do lado sombrio
Do lado feminino
Fascínio do outro olhar

Há uma balança que pesa o terror dos pesadelos
Há-os de várias cores, cheiros, aspetos em geral
Mas é o peso que domina a sua substância
Há-os leves e ágeis, que correm velozes acima dos energúmenos obesos – nós –
Há-os temperados, com qualidade, brio, civilizados, peso certo – eles -
E há-os consubstanciados, digo mesmo, pesados, pesadelos de dor aguda, pesadelos asfixiados, sem sumo, sem alegria – pesadelos desertos, estéreis, pesadelos de morte, sem futuro – nossos

No meio disto tudo sobrevive a balança, uma mera criação de um pesadelo ido, e o pesador, que se impõe amargo e pomposo, às escondidas, acima dos pesadelados